FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Conceitos-chave do ISD
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Conceitos-chave do ISD

 

 

 

 

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Conceitos-chave do ISD

O presente trabalho se fundamenta no ISD, para tratar do ensino de línguas estrangeiras, em especial da língua inglesa, centrado nos gêneros textuais. Esta fundamentação está organizada em duas seções principais. A primeira trata de conceitos-chave do ISD, tais como, gênero textual, atividade de linguagem, ação de linguagem e transposição didática. A segunda parte trata de um estudo a cerca do gênero em foco neste trabalho: o conto de fadas. Ambas as partes aqui tratadas complementam a fundamentação para a produção e implementação do material didático de intervenção.

 

Gênero Textual

Conforme Bakhtin (apud CRISTOVÃO e NASCIMENTO, 2005, p. 18) assinala, os gêneros podem ser definidos como “formas de enunciados relativamente estáveis”, ou seja, os gêneros são estruturas organizadoras de ação de linguagem em uma determinada comunidade lingüística e dentro de esferas sociais que, como os gêneros, são teoricamente infinitas. O caráter de forma estável se explica devido ao fato de possuírem um conteúdo temático, um estilo (estruturas lingüísticas) e uma construção composicional (organização textual e relação entre interlocutor). Entretanto, os indivíduos ao agir na sociedade por meio da linguagem e ao longo da história, acabam por modificar os gêneros os quais surgem, situam-se e integram-se funcionalmente (i.e. na intenção de comunicação) nas culturas em que se desenvolvem; o que explica seu caráter de relativa estabilidade.

Essa noção de gênero é fundamental, particularmente, no presente trabalho visto  que é necessário perceber a língua enquanto prática social/comunicativa que garanta a ação e interação de forma dialógica com o mundo. Para que esta interação ocorra, o sujeito precisa apropriar-se da língua utilizada pela maioria dos falantes, nativos ou não, precisa fazer uso da língua que esteja em domínio político, econômico e tecnológico (atualmente a língua inglesa).  

 

Atividade de linguagem e Ação de Linguagem

          Os inúmeros gêneros textuais existentes são construtos que nos ajudam a entender como nos comunicamos, por meio da linguagem (verbal ou não-verbal). Nesse contexto, pode-se dizer que a comunicação (organizada pelos gêneros) funciona em duas vias: social – em atividades de linguagem – e individualmente – por ações de linguagem (ou textos).

Ao relacionar ação e atividade de linguagem, Bronckart (apud, CRISTOVÃO e NASCIMENTO, 2005, p. 41) afirma:

                                                               [...] a situação social de produção do enunciado/texto que determina a

                                                               base de orientação para a ação de linguagem materializada na produção

                                                               de texto (oral ou escrito) essa operação incidindo sobre o contexto será

                                                               traduzida nas escolhas de unidades semânticas e sintáticas de uma língua

                                                               que constituirão “marcas” da construção pelo enunciador dessa base de

                                                               orientação.  

 

Sendo assim, tem-se as atividades de linguagem que organizam e, pode-se dizer, determinam as ações de linguagem. Estas ações (individuais) são delimitadas por julgamentos sociais e necessitam de uma base de orientação socialmente estabelecida no âmbito das atividades sociais – para tomadas de decisões com relação à escolha deste ou daquele gênero, bem como escolhas lingüísticas, na construção da ação (ou texto).

          Para exemplificar os conceitos de atividade e ação de linguagem, pode-se pensar na esfera social do comércio. Mais especificamente, num contexto em que uma determinada empresa deseja promover um determinado produto. Assim, pode-se dizer que Marketing é uma atividade de linguagem. Dentro desta atividade (social) de linguagem, diversas ações (individuais) de linguagem podem ser produzidas. Pessoas (ou grupos de pessoas) são responsabilizadas a desenvolver diversos textos (ações de linguagem) no conjunto desta atividade de Marketing, por exemplo, textos, provavelmente, pertencentes a gêneros como propaganda de TV, propaganda de rádio, panfletos, outdoors etc. Assim, em cada uma dessas ações de linguagem (textos pertencentes a diferentes gêneros), contextualizadas pela mesma atividade de linguagem (Marketing), há uma intencionalidade (atingir um público alvo para a compra deste determinado produto), há uma viabilização da propaganda (a escolha pelo melhor meio de veiculação da propaganda – aqueles que atinjam eficazmente o público alvo), há uma adequação da ação de linguagem (texto) (analisar o contexto histórico social atual ao qual o público alvo está inserido).

         O exemplo citado engloba capacidades da parte do agente produtor da ação em adaptar-se às características do contexto e do referente (capacidade de ação), mobilizar modelos discursivos (capacidade discursiva) e dominar as unidades lingüísticas (capacidade lingüítico-discursiva). Podemos observar no exemplo que cada ação de linguagem é construída com o propósito de comunicação (interação autor-texto-leitor) e, conseqüentemente, de ação social. Porém o leitor, bem como o produtor, precisa conhecer as estruturas lingüísticas mais adequadas à ação de linguagem, neste caso, as estruturas próprias dos gêneros da propaganda, para que haja funcionamento efetivo da ação produzida no contexto da atividade.

          O contexto histórico-social do ensino de línguas, neste caso o da língua inglesa, é o que determina a atividade de linguagem (a necessidade do ensino/aprendizagem de língua inglesa dentro do contexto de comunicação através da língua dominante); e ainda é o que leva o sujeito a realizar as ações de linguagem (a produção individual de textos direcionada e organizada por uma atividade de linguagem e pelos gêneros).

 

 

Transposição didática

         Para que conhecimentos em nível teórico, como o de gêneros, possam ser utilizados para o ensino em sala de aula, faz-se necessário um processo de transposição, em que devem ser elaborados materiais didáticos que consigam transformar o conhecimento científico, neste caso, sobre os gêneros em conhecimento a ser ensinado. Este processo de transposição denomina-se “transposição didática” e é definido em Machado e Cristóvão (2006, s/p) como as transformações pelas quais um conjunto de conhecimentos necessariamente sofre quando temos o objetivo de ensiná-lo. Segundo as autoras, estas transformações trazem sempre muitas rupturas e deslocamentos, pois os conteúdos a serem ensinados devem ser selecionados levando em conta tanto o conhecimento científico quanto às práticas sociais da linguagem. 

Um dos passos da transposição didática ocorre através da produção de seqüências didáticas. Estas consistem em atividades progressivas, planificadas, guiadas por um tema, por um objetivo geral, ou por uma produção de texto final (MACHADO e CRISTÓVÃO, 2006, s/p). Com base em Schneuwly (apud MACHADO e CRISTÓVÃO, 2006, s/p), são apresentadas razões que explicam a importância do desenvolvimento e conseqüente trabalho com SDs:

                                                                                             [...] - a SD permitiria um trabalho global e integrado;

                                                                                             - na sua construção, considerar-se obrigatoriamente,

                                                                                             tanto os conteúdos de ensino fixados pelas 

                                                                                             instruções oficiais quanto os objetivos de

                                                                                             aprendizagem específico;

                                                                                             - ela contemplaria a necessidade de se trabalhar

                                                                                             com  atividades e suportes de exercícios variados;

                                                                                             - ela permitiria integrar as atividades de leitura, de

                                                                                             escrita e de conhecimento da língua, de acordo com

                                                                                             um calendário pré-fixado;

                                                                                             -ela facilitaria a construção de programas em

                                                                                             continuidade uns com os outros;

                                                                                             -ela propiciaria a motivação dos alunos, uma vez que

                                                                                             permitiria a explicitação dos objetivos das diferentes

                                                                                             atividades e do objetivo geral que as guia; [...].

 

Portanto, para realizar o trabalho que será desenvolvido sob a perspectiva do ISD, é fundamental o conhecimento destes conceitos-chave, o uso destes é imprescindível para a produção do material didático e implementação da intervenção em sala de aula. No gráfico abaixo, procurou-se ilustrar, dentro do contexto de sala de aula, os conceitos-chave discutidos nesta fundamentação na tentativa de melhor expressá-los.


 

O gráfico acima mostra o contexto de uma atividade de linguagem: o professor conduzindo uma aula e, ao mesmo tempo, delimitando seus objetivos, trabalhando um conto de fadas, realizando sua ação de linguagem e motivando os alunos a participarem e interagirem por meio de suas respectivas ações de linguagem (oralidade).

Todos os direitos resrvados à professora Eliani Barbiéri